Na noite em que soube que o meu pai ia morrer, chorei sozinha durante toda a noite.
Na manhã seguinte, enchuguei as lágrimas decidida a enfrentar uma batalha inglória contra um mal que sabia não poder vencer.
Foi nesse dia que comecei a construir o muro.
Seguiu-se um mês de luta que travei de braços atados e que se transformou apenas numa espera resignada, contra a minha natureza lutadora, onde a única arma que podia usar era o meu Amor e o meu carinho no apoio ao vencido à espera que se rendesse ou que fosse fulminado.
Impedida de lutar de igual para igual contra o inimigo, criei um muro cada vez maior e mais sólido...nada mais podia fazer senão procurar protegê-lo e acabei também por me proteger a mim daquela Dor.
Esta semana fez exatamente dois anos desde essa noite em que a minha Alma purgou em lágrimas as suas mazelas. Desde aí nunca mais chorei.
Enterrei o meu pai, apoiei a minha mãe, vi a minha família desmoronar-se e enfrentei um divórcio dífícil, sucumbi em paixões, experimentei novas sensações e às vezes, poucas vezes, em momentos de maior emoção, escapou uma lágrima de fugida pelas festas do sólido muro que me protegia.
Um dia sem que o chamasse ou procurasse, um passarinho pousou-me no ombro e com o simples poder do seu canto, desmoronou por completo o meu muro.
Deslumbrei-me ao vislumbrar a grandeza do horizonte que se apresentava à minha frente, fora dos muros que me protegiam mas que também me limitavam.
Via o passarinho a voar, ouvia-o a cantar, dirigia-me o seu canto e entoou-me que um dia me viria buscar para voar com ele e descobrir o céu.
Preparei-me, perfumei-me e esperei por esse dia.
Mas não veio....vi-o certo dia a voar com outra ave pela imensidão do céu e deixei de o esperar.
Não fiquei triste, sentia-me feliz e agradecida a ele, por ter quebrado o muro que me limitava a visão, pela possibilidade de o contemplar a voar...tão belo, e por me ter permitido voltar a sonhar.
Um dia vi-o sozinho, pousado, sem forças para voar e mudo no seu cantar e....apertou-se-me o peito.
Nunca o chamei, mas observava-o sempre atenta e quando se aproximava dedicava-lhe todo o meu carinho.
Queria confortá-lo....procurei a flor mais bela que consegui encontrar e colhi-a para lhe ofertar.
Não ambicionava voar com ele, simplesmente pretendia adoçar-lhe a alma e voltar a ouvi-lo cantar feliz.
Estendi-lhe a mão e ofereci-lhe a flor ....mas não a aceitou.
Nesse momento em que fiquei de mão estendida, a olhar para a flor que tinha colhido com tanto Amor, algo dentro de mim se quebrou. Senti-me vulnerável sem o muro que me protegia, sem ter onde me refugiar e foi como se se tivessem aberto as comportas de uma barragem interna que retinha as minhas lágrimas desde há dois anos....e chorei.
Continuo a chorar e não sei como hei-de voltar a fechar as comportas e dominar as lágrimas na represa...saltam-me permanentemente dos olhos e não deixam que as domine.
Vou tentar voltar a construir um muro que me proteja, mas por agora.....só consigo chorar.